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Fórum levanta a pauta sobre a importância do negro, na história de Quissamã

Realizado no Centro Cultural Sobradinho, na véspera do Dia da Consciência Negra, o Fórum “Nossa terra, nossa gente e nossa história”, trouxe à tona a relevância dos negros na formação identitária do município de Quissamã, identificado como um território negro, tanto pelos movimentos locais, como pelos movimentos estaduais e nacionais. O evento contou com a participação de moradores de Machadinha, lideranças e alunos, tanto da rede municipal, quanto do Colégio Cenecista Nossa Senhora do Desterro.
O reconhecimento e a valorização dos negros como elementos preponderantes da cultural local, foram a tônica do evento, voltado também a propor reflexões a respeito do racismo estrutural. O evento contou com palestras, roda de conversa, apresentações musicais e do jongo e exposição de fotos dos representantes de manifestações culturais dos territórios quilombolas formados por Machadinha, Boa Vista, Bacurau, Mutum e Santa Luzia.
Logo na abertura, Ana Maria Gonçalves, representante da União dos Negros pela Igualdade – Unegro, destacou a importância do evento, não apenas pelo aspecto comemorativo, mas pela necessidade de se discutir cada vez mais, a relevância daqueles que foram – e continuam sendo, essenciais no processo de formação da sociedade local. Renata Queirós, diretora do Centro Cultural Sobradinho; Allan Alves, diretor da Escola Municipal Felizarda Maria Conceição de Azevedo (que fica em Machadinha); o vereador, Aílson Belarmino, e Kitiely Freitas, secretária de Cultura e Lazer, completaram a mesa de abertura do evento.
Um dos momentos mais importantes do Fórum foi a proposição de reflexões, com base na relevância dos antepassados, sobre o papel dos negros na sociedade moderna, assim como o preconceito, a discriminação e o racismo estruturado. A cientista social, Nágila Oliveira, coordenadora do Ceam – Centro Especializado de Atendimento à Mulher e a professora, historiadora e escritora, Elaine Marcelino, pontuaram, a partir de narrativas pessoais, como racismo estruturado compromete a ascenção dos negros, profissionalmente, reduzindo as perspectivas, a partri da cor da pele.
– Uma pessoa pode chegar no Ceam, olhar pra mim e achar que sou uma das usuárias. Muitos não me reconhecem, ou me enxergam como alguém que possa ocupar aquele cago. Entretanto, sou identificada pelas mulheres usuárias daquele equipamento como alguém que faz parte do universo delas, porque em muitos casos, a violência contra a mulher é, também é resultado do preconceito e da discriminação racial, afirmou Nágila.
Para ela, uma das formas de se combater o racismo estrutural é criar uma sociedade com mais equidade social, é trabalhar a educação, é valorizar os aspectos históricos e culturais: “precisamos manter vivo o patrimônio imaterial e material da população negra. Nós moramos em Quissamã, que é um território riquíssimo e a partir disso, nós conseguimos manter as tradições. Precisamos conhecê-las e valorizá-las”, afirmou Nágila.
Professora e historiadora, Elaine Marcelino virou tema de matéria em alguns dos grandes veículos de comunicação do País, após a publicação de seu primeiro livro e de uma indicação para o Prêmio Jabuti, o mais importante da literatura brasileira, ao participar de uma coletânea de contos. Sem esconder a idade, aos 45 anos, ela conta que iniciou a trajetória como escritora aos 31: “publiquei meu primeiro livro, mas nem sei direito como comecei a escrever. Naquela época eu nem sabia que estilo literário era o meu. Não tive acesso ao mesmo ensino que outros jovens da minha época. Hoje eu vivo disso, vivo do meu trabalho, vivo da publicação dos meus livros. O Cazuza escreve o seu primeiro poema aos dez anos. Bem jovem, ele foi com o Pedro Bial entrevistar o Tom Jobim. Será que se eu tivesse acesso à mesma educação e oportunidades que eles tiveram, eu não teria começado mais cedo?”.
– Eu não tenho nada contra o Cazuza, muito pelo contrário. O que a gente coloca em discussão não são as oportunidades que outros possam ter, mas as que são negadas à uma imensa população que é marginalizada, afirmou Elaine.
Dentre as manifestações artísticas e culturais que fizeram parte da programação, a apresentação do Grupo Cultural Tambores de Machadinha foi uma das mais emocionantes. Como células vivas disseminadas, o jongo está ressurgindo por meio da prática da expressão cultural de comunidades remanescentes de quilombos em Quissamã. Descendentes de africanos de Machadinha atualizam o jongo, tradição hoje manifestada pela sexta geração dos escravos que trabalharam na lavoura da cana-de-açúcar.
Secretária de Cultura, Kitiely Freitas, defende a importância de uma educação efetivamente antirracista. Para ela, a desigualdade é evidente, sendo o combate à ela indispensável para qualquer mudança. Kitiely afirma que a Educação é único o caminho para que se possa pensar em uma sociedade igualitária.
– De caráter estrutural e sistêmico, a desigualdade racial no Brasil é inquestionável e persiste devido a fragilidade de políticas públicas para o seu enfrentamento. O fórum foi um espaço para dialogar sobre a construção de uma sociedade mais igualitária, pois isso requer a compreensão do papel de cada estrutura socioeconômica na reprodução do racismo, para elaborar estratégias efetivas de enfrentamento.
Dalma dos Santos Ricardo, diretora do Memorial Machadinha, professora, contadora de histórias e escritora, pontuou questões fundamentais:
– É muito importante esse momento de reflexão, pois é uma maneira de confirmar a nossa identidade, além de valorizar nossas origens. Por meio da educação quilombola, contos locais e africanos, estamos passando o conhecimento de geração em geração. O ensinamento da cultura local para as crianças da localidade, fortalece as raízes e enfatiza as origens. Flores da Senzala é um projeto desenvolvido com a criançada da comunidade, que contempla a contação de história, o jongo mirim e o artesanato local. A história sem memória, está morta”, ensina.

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